Edgar

Algumas bailarinas olham de soslaio. Outras levam a mão involuntariamente aos colares. A maioria apenas ignora."Aquele chato tarado de novo". E voltam ao seu ensaio, terrivelmente jovens, belas e entediadas. É um verão quente e nem sempre a água de colônia é a solução para os problemas. Pela sala ampla se ouve somente o farfalhar do tule e as tentativas de Edgar em não fazer ruído algum ao montar o cavalete. A professora fita desaprovando a queda de algumas bisnagas, mas segue demarcando as dobras de joelho. Meninas mais velhas bocejam sentadas sobre a lareira e aguardam seu horário. Umas amarram as sapatilhas, outras invejam pela janela os moleques que se banham no rio. Edgar já começou a pintar, o olhar fixo no tule. É sempre o tule. Não é o foco que as meninas pensam, mas quem se importa. É o tule. Ao seu lado, a mãe do dia, de braços cruzados, divide seus olhares: censores para Edgar (“onde já se viu um homem numa aula de balé?”) e orgulhosos para a filha, que rodopia no salão. Quem se importa com as tintas, que se importa com os pincéis, quem se importa com a tela. Aquele momento é só das sapatilhas de fitas de cetim e do tule. A pianista para. Dedos no ar à espera do sinal de madame. Ela perde o olhar por um segundo nas águas caudalosas envidraçadas, mas se volta rapidamente para as meninas e bate uma palma. “Aller encore une fois!”

Homem-bomba

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Todo dia vem um homem-bomba me explodir. Todo dia.
É o homem-bomba do aquecimento global, que explode na minha cara que eu tenho derretido os icebergs do planeta e
que me culpa pelo canibalismo dos ursos polares.
É o unabomber da propaganda, que me diz o que eu deveria ter, mas não tenho como adquirir. É a mulher-bomba gostosa
que me faz desejar o impossível e mata as outras mulheres com seus photoshops explosivos de tesão inatingível.
É o homem-bomba do sucesso berrando em meus ouvidos que a culpa pelo fracasso é totalmente minha e que, se eu desejasse
de verdade, teria tudo o que quero. É o homem-bomba da pílula azul fazendo escárnio de quem não fode ao menos três vezes
ao dia. É o mesmo homem-bomba que me diz que, além de trepar muito, não posso pegar aids, que devo me proteger e proteger
o mundo do meu sêmen.
Todo dia eu recebo em minha cara as vísceras de um homem-bomba incerto que me diz que não devo beber, mas que um cálice
(o que é um cálice afinal?) de vinho todo dia faz bem. É o cara explosivo que ontem dizia que o café causa esquizofrenia, mas hoje faz bem ao coração. É o homem-bomba que me joga na cara diariamente que o veneno do tomate vai me causar câncer, mas que eu não tenho dinheiro pra comprar orgânicos. É a explosão diária de um gerente-bomba me cobrando a conta bancária em dia. É o médico-bomba que devo parar de fumar, que devo correr, que devo me alimentar, que devo fazer exames, que devo
me divertir, que devo dormir bem.
A toda hora, a lembrança de um pai-bomba, uma mãe-bomba, uma esposa-bomba, um filho-bomba, algum parente-bomba me
faz lembrar que o estampido acontece dentro de casa e fora dela. É o padre-bomba, o pastor-bomba, o político-bomba, o pedagogo-bomba, o psiquiatra-bomba que me pergunta a todo momento onde estão os valores, os bons costumes. Aonde vamos
levar nossas crianças.
Todo dia um deus-bomba vem me julgar culpado pela minha inocência. E todo dia um ateu-bomba vem dizer que sou isento da minha culpa.
Todo dia eu recebo uma pessoa-bomba na minha rede social, quantificando em pessoas que não existem o tamanho da minha solidão. Toda hora uma gente-bomba resume o que eu faço, o que eu penso, o que eu leio, o que eu escuto, o que eu vejo em um dedinho pra cima com a opção de desfazer.
Todo segundo eu recebo um passarinho-bomba revelando meu valor equivalente a 140 caracteres.
Toda dia eu também sou um homem-bomba. Toda hora eu explodo dizendo o que outros homens-bomba deveriam fazer, julgando como é inadequada a explosão de outras pessoas-bomba. A todo momento eu detono meu próximo com sentimentos que não existem, dizendo que amo a quem não conheço ou descartando antes de conhecer.
Todo dia eu compro uma bomba no meu cartão de crédito, todo dia eu acumulo bombas no banco, no meu sangue, no meu fígado, no meu coração, no meu cérebro. A cada segundo da minha bombástica existência, um estopim.
A todo momento o Sol explode e me atinge com suas bombas radioativas. A toda hora uma estrela explode e forma um buraco-negro. A cada segundo uma galáxia é detonada. Todo dia.
E nascem novos sóis, novos sistemas, novos planetas, novas atmosferas, novas enzimas... Nascem tanto que um dia explodem.

Rakelly Calliari entre os finalistas no Festival Nacional Sesi Música

A cantora foi a única representante do PR entre os dez finalistas na categoria música inédita, Rakelly Calliari brilhou na composição e na interpretação de "Na Lapela".

Este ano, o festival aconteceu na capital mineira e selecionou 57 artistas entre intérpretes e compositores.

A final foi apresentada pelo jornalista Zeca Camargo e ainda contou com shows de Lô Borges e Flávio Venturini. Assista ao vídeo da interpretação de Rakelly:

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