Zilda

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Quanto mais admiro uma pessoa, menos quero conhecê-la intimamente. Procuro manter minha admiração guardando certa distância para não correr o risco de me decepcionar. É assim com artistas plásticos, é assim com atores, cantores... Foi assim com doutora Zilda Arns. A morte dela, mais que uma perda humana, foi um golpe certeiro na minha autoestima enquanto cidadão. Nosso país carece de heróis de verdade, como disse uma jornalista, e a figura de Zilda enquanto médica, religiosa (no sentido de ter fé, não interessaria se, ao invés de católica, ela fosse protestante ou macumbeira), enquanto carismática, enquanto a mulher elegante em todos os sentidos que era.

Perder esta mulher é passar a ter um sentimento bastante egoísta, porque Zilda parecia ser "nossa". Todo mundo queria uma Zilda para si, para salvar seu próprio mundo com medidas tão simples como o prego enferrujado no feijão para curar anemia. A impressão que se tem é que ela poderia dar conselhos e soluções para qualquer coisa. Trabalho há anos com imprensa e acompanhava o trabalho desta mulher com interesse. Sempre que alguém me perguntava quem eu admirava que não fosse do mundo das artes, logo eu lembrava dela. Quase como uma avó que todo mundo queria ter (as que tenho são maravilhosas, claro, mas digo além delas). E, de repente, um terremoto estúpido arranca a doutora e, não contente, ceifa a vida de milhares de outras pessoas. Talvez a Morte, com vergonha de ser desacreditada por levá-la sozinha, usou este subterfúgio inconsequente de carregar outro tanto pensando que isso iria nos distrair. Pobre Morte.

Dá medo perder Zilda. "E agora, José?", parafraseei o poema de Drummond quando recebi a notícia, enquanto a colher com açaí e banana se congelava no ar. Tudo bem, confesso que também soltei um palavrão, mas não vou macular este texto com uma palavra destas. O que fazer sem uma heroína viva? Quem vai ficar no lugar dela? Tiradentes? Que me perdoe o nosso barbudo mártir, mas a história dele permanece enevoada por questões não resolvidas e que talvez nunca encontremos respostas. Já Zilda, não. Nunca ouvi a mais sutil palavra, da mais maldosa criatura (e, saibam, o que não falta na imprensa é gente maldosa), contra a pessoa dela, contra a entidade dela. Dá medo porque ficamos órfãos, carentes de quem admirar em um país cuja imagem bufônica de dinheiro em meias e cuecas é a lembrança mais latente de pessoas que deveriam ganhar nossa afeição.

E dezenas de textos são publicadas diariamente sobre a doutora. E procuro ler todos. É uma unanimidade deliciosa. Muitos tentam ser os mais originais possíveis em suas palavras para se dirigir à lembrança de Zilda, mas é inevitável ser deliciosamente piegas. Perder Zilda é um alerta de que ainda temos tempo e que ainda é possível, mesmo que a miséria e a ignorância abalem nossas estruturas frágeis.

Quero acreditar que D. Zilda Arns não morreu vitimada por uma viga da igreja haitiana. Ela deve estar percorrendo a ilha de Papa Doc salvando muitas vidinhas que insistem em querer desistir.

 

Peterson Dias

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O programa Arte e Palavra, da Rádio UEL FM, homenageia Zilda Arns com o célebre poema "E agora, José", de Carlos Drummond de Andrade.

 

 

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